sexta-feira, 3 de julho de 2015

Bandeirantes: "heróis" ou "vilões"?

Mamelucos conduzindo índios capturados



Durante o século XIX a historiografia brasileira valorizou os bandeirantes a tal ponto de qualificá-los de “heróis”. Nos livros didáticos até um tempo atrás era comum chamá-los de a “raça de gigantes”, ou seja, aqueles homens que tiveram a coragem de desbravar os sertões e expandir a fronteira, homens corajosos e virtuosos que enfrentavam as adversidades do ambiente. Os manuais escolares narravam os “grandes” feitos de conhecidos bandeirantes como Anhanguera, porém com o revisionismo historiográfico da segunda metade do século XX a questão sobre os bandeirantes foi dissecada e de “heróis” passaram a “vilões”.
Antes é necessário distinguir as bandeiras das entradas. Esta última em geral era financiada pelo governo português enquanto a primeira, ou seja, as bandeiras eram financiadas em sua maior parte dos recursos por parte particulares. A colonização iniciou-se por estas terras em 1532 quando Martim Afonso de Sousa fundou a vila de São Vicente. E foi da capitania de São Vicente que as bandeiras partiam. No litoral desta capitania foi desenvolvido satisfatoriamente o cultivo da cana-de-açúcar e por isso o povoamento restringiu-se ao litoral além da serra (montanha) que impedia a penetração pelo interior, porém o planalto foi conquistado. Em 1554, padre Manuel da Nóbrega, funda o colégio de São Paulo, este colégio serviu como aglutinador do povoamento do planalto do Piratininga.
No litoral a vida era mais “tranquila” devido os lucros com a exportação do açúcar e a proximidade com a Europa o que facilitava a importação de gêneros alimentícios e outros. Bem diferente era a situação no planalto da Capitania de São Vicente,

A produção de gêneros de subsistência mantinha a região serrana quase que marginalizada do comércio mundial. Á medida que não exportava em escala significativa, sua capacidade de importação era irrisória. A produção de gêneros de subsistência garantia a sobrevivência, mas encarecia a obtenção de produtos importados, uma vez que os mesmos não poderiam ser pagos com aquilo que a região produzia ( VOLPATO, 1994, p. 26).

Os “paulistas” que viviam no planalto produziam seus vinhos, trigos e tecidos. Mas insuficiente para comparar com o luxo desfrutado no litoral da capitania. Desde cedo tiveram que se acostumar com as poucas possibilidades e com a vida dura. Precisavam de mão de obra e essa foi encontrada na escravização dos índios, pois não tinham recursos para comprar o escravo negro. Como a mão de obra indígena foi aos poucos escasseando tiveram que ir a busca de nativos no sertão, ou seja, adentrando as matas. Porém, a luta não foi fácil e os ameríndios lutaram com todas as forças contra o bandeirante escravizador. Segundo a historiadora Luiza Volpato, “Durante a segunda metade do século XVI, o confronto entre brancos e índios pela posse do território foi suficiente para abastecer a economia planaltina da maior parte da mão de obra que necessitava” (1994, p. 35). Dessa forma, os índios da região foram brutalmente exterminados e escravizados pelos “paulistas”. 

Causas do bandeirantismo

A busca de mão de obra sertão adentro tornou-se uma alternativa econômica, o índio deveria ser escravizado. Do ponto de vista econômico era explicada a escravização dos nativos, pois os paulistas necessitavam de braços para o trabalho, não dispunham de recursos para comprar escravos africanos, economia pouco vinculada com o mercado externo. Dessa forma a alternativa foi penetrar no sertão em busca de índios para escravizar. Soma-se a isso a esperança de encontrar metais e pedras preciosas. A coroa portuguesa tinha interesse que fossem encontradas pedras preciosas ou metais, pois oferecia incentivo aos bandeirantes como prêmios, honras, títulos, terras e pensões.
Muito provavelmente estes nativos aprisionados pelos bandeirantes eram vendidos para as vilas do litoral da própria capitania, ou seja, São Vicente e Santos, bem como, para capitanias nordestinas no cultivo da cana. O século XVII foi o período áureo do comércio, quando expedições imensas foram enviadas a regiões cada vez mais distantes em busca dos silvícolas que a colônia consumia.

As bandeiras




As bandeiras eram “empreendimentos de caráter particular e tinham por objetivo a busca de solução para problemas sociais da vila de São Paulo” (VOLPATO,1994, p. 57). Isso deve ficar claro. Pelo menos até o século XVII tinham o objetivo de prear indígenas e eram agressivas e violentas.
Não era qualquer pessoa que comandava uma bandeira, pois custava muito recursos. Esses empreendimentos permaneciam até mesmo anos no sertão e seu sucesso dependia também de aparelhamento bélico. Dela participavam alguns brancos (líderes), centenas de mestiços e milhares de índios. Os índios tinham papel importante nas bandeiras, pois eram os flecheiros, conheciam bem as matas, ensinavam aos portugueses os caminhos, a forma de andar nas matas, os remédios e as formas de conseguir alimentos para a subsistência. Ao contrário que muitos afirmam a maior parte das bandeiras não seguiam os cursos dos rios, mas andavam por dentro das matas. Neste caminhar fundaram vilas, atacaram aldeamentos missionários (mais conhecido o de Guairá na divisa do Paraguai), expandiram as fronteiras do império português e descobriram as jazidas de ouro. Foram até  aos atuais estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Os mamelucos guiavam a expedição. Reunindo características do branco e do índio, desempenhavam papel importante como elemento de ligação entre as duas culturas, europeia e indígena.
Os índios, além de ensinar o caminho, carregavam as provisões e eram responsáveis pela coleta dos frutos da floresta necessários à alimentação do grupo.

Representação comum das vestimentas dos bandeirantes

Os bandeirantes levavam arcabuzes, bacamartes, pistolas, chumbo e pólvora, machados, facas, foices e cordas para prender e conduzir os índios escravizados.
Apesar de representados, em pinturas e esculturas, como homens bem vestidos, andavam descalços, usando grandes chapéus de abas largas e gibões de algodão acolchoados para se proteger das flechas. Caminhavam em fila indiana, uma influência indígena. Durante o tempo que passavam no sertão, o alimento básico era a "farinha de guerra", feita de mandioca cozida e compactada, além do que encontrassem na mata.
Dependiam da caça, da pesca, das ervas e raízes, do mel silvestre e, quando adoeciam recorriam aos recursos da flora e da fauna utilizados na "medicina" indígena, conhecidos mais tarde, em toda a Colônia, como "remédios de paulistas".
Com o tempo, passaram a plantar roças de subsistência ao longo dos caminhos percorridos, que eram colhidas na volta ou deixadas para outras bandeiras.

“Fases” do bandeirantismo

Didaticamente podemos esquematizar por objetivos principais as bandeiras:
1)      Apresamento de índios: Sua ênfase deu-se durante o século XVI e parte do XVII. Constituiu-se da escravização dos índios;
2)      Prospecção: Neste fase o foco central foi da descoberta de jazidas de metais como o ouro e pedras preciosas. Seu ápice deu-se no final do século XVII e início do XVIII e culminou com as descobertas nas Minas Gerias, Goiás e Mato Grosso.
3)      Sertanismo de contrato: Vigorou no mesmo período que a prospecção. Os bandeirantes foram contratados para combater quilombos, palmares, por exemplo, e na luta contra os holandeses também no nordeste.
Consequências do bandeirantismo

ü  Dizimação dos povos indígenas;
ü  Aumento das fronteiras portuguesas estabelecidas pelo tratado de Tordesilhas (não respeitavam a divisão do tratado) que mais tarde foram confirmadas pelo tratado de Madri (1750) onde essencialmente permanece até hoje;
ü  Descobertas das jazidas de ouro.
Conclusão

Como vimos a vida dos bandeirantes não era fácil e devido a pobreza da pequena vila de São Paulo do Piratininga seus habitantes buscaram alternativas econômicas. Entrando nos sertões passavam inúmeras provações. Muitos adoeciam, carência de alimentação, no retorno à São Paulo (vila de onde partiam a maior parte das bandeiras) muitos índios aprisionados morriam. Destaca-se a participação nas bandeiras dos mamelucos (frutos do cruzamento de brancos e índios) que foram a maioria. Verifica-se que as bandeiras não possuíam nada de democrático, pois as funções eram rígidas. Os bandeirantes abusavam das índias gerando filhos bastardos. A violência foi marcante na captura à força do nativo.
Cabe a você a pergunta que dá título a este texto: os bandeirantes foram “heróis” ou “vilões”?

Por professor Bruno Rafael
Referências

FAUSTO, Boris. História do Brasil.4.ed. São Paulo: EDUSP, 1996.
VOLPATO, Luiza. Entradas e bandeiras. 4.ed. São Paulo: Global, 1994.( História popular).

5 comentários:

  1. Achei o texto muito bom, parabéns... Porém achei que não me explicou se eles eram heróis ou violões e porque.

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    1. Olá, Harley. Obrigado por sua opinião. A ciência histórica não tem a função de colocar o passado no tribunal e julgá-lo. Ela visa explicar e compreender determinados comportamentos humano no tempo. O objetivo do texto é mostrar as duas vertentes interpretativas sobre os bandeirantes. Uma baseada no positivismo os consideram como heróis e outra pautada no materialismo histórico denuncia o caráter violento deles. Penso que nenhuma nem outra é a mais "verdadeira". O importante é percebê-los dentro de um contexto, onde viveram as contradições humanas. Isso tudo sem justicar as atrocidades cometidas contra as populações indígenas. O texto não oferece resposta, mas visa te levar a um pensamento autônomo. A escolha é sua.

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  2. Essa é a resposta de um verdadeiro professor! Não quer te convencer de nada Harley Quinn, quer te apresentar os fatos e fazê-lo chegar às tuas conclusões, formar um livre pensador! Parabéns, ainda bem que ainda temos mestres com a tua honestidade intelectual.

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    1. Agradeço seu comentário e elogio. Suas palavras motivam-me a aperferçoar-me cada vez mais na minha missão de ser professor.

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