terça-feira, 19 de abril de 2016

Mesopotâmia: o berço das civilizações



Mesopotâmia: o berço das civilizações
Considerada como o “berço da civilização” e denominada de Mesopotâmia (palavra que significa “terra entre rios”), pelos gregos na Antiguidade. 

Como observado no mapa, a mesopotâmia ficava na região do crescente fértil. Região onde surgiram as primeiras civilizações. A Mesopotâmia localizava-se no Oriente Médio, na região formada pelas bacias dos rios Tigre e Eufrates, que nascem nas montanhas da Armênia e desembocam no Golfo Pérsico, no atual Iraque. Atualmente, os dois rios juntam-se antes da desembocadura, formando o canal de Shatt al-Arab.
Ao Norte da Mesopotâmia (Alta Mesopotâmia), ficava a Assíria, região mais árida, e ao sul (Baixa Mesopotâmia), ficava a Caldeia, região mais fértil. As cheias dos rios Tigre e Eufrates, que ocorriam entre junho e julho, provocavam grandes inundações, principalmente no sul. Quando as águas baixavam formavam um lodo que fertilizava o solo, tornavam a área ideal para o cultivo de cereais e frutas e para a criação de gado. O controle das cheias dos rios exigia um eficiente sistema de organização coletiva do trabalho, para a construção de diques de proteção, drenagem e canais de irrigação que levavam a água às regiões mais distantes do Tigre e do Eufrates.
Por sua localização na passagem do Mar Mediterrâneo para o Golfo Pérsico, e sendo de fácil acesso para a Europa, a África e a Ásia, a planície mesopotâmica era uma região muito disputada atraindo povos de diversas origens, destacando-se os sumérios, os acádios, os amoritas (antigos babilônios), os assírios e os caldeus (novos babilônios). A história política da Mesopotâmia é marcada por sucessivas invasões, guerras, ascensão e declínio de diversos reinos e impérios.
Sumérios
Os sumérios, considerados a mais antiga das grandes civilizações humanas, foram os que inicialmente ocuparam a região, por volta de 3500 a.C. Vindos do planalto do Irã, fixaram-se na Caldeia, sul da Mesopotâmia. Fundaram diversas cidades-estados, como Ur, Uruk, Nippur, Lagash e Eridu, com governos independentes.
Cada cidade-estado sumeriana possuía um centro político, econômico e religioso, que era o templo. O líder de cada cidade era chamado patesi (governante-sacerdote), era também chefe militar e governante, auxiliado pela elite aristocrática dos altos funcionários e sacerdotes do templo. As cidades-estados viviam constantemente em guerra entre si pela hegemonia na região. Vale ressaltar que o patesi não governava todas as cidades sumérias, mas apenas a sua própria cidade-estado.
Considerados os inventores da escrita; os sumérios criaram uma escrita para registrar a contabilidade do rico patrimônio dos templos, a quantidade de cereais estocada nos celeiros, o número de cabeças de gado etc. A partir de 3000 a.C., passou a ser utilizada também para registrar textos religiosos, literários e algumas normas jurídicas.  Escreviam em “tábuas” de argila, utilizando um estilete de extremidade triangular deixando sinais em forma de cunha (a escrita cuneiforme).

                                               Figura 1 Escrita cuneiforme
Os sumérios introduziram o uso de rodas nos veículos, o que representou uma revolução na locomoção terrestre. Antes os veículos em forma de trenó, eram puxados por animais, com a utilização da roda o transporte de mercadorias tornou-se mais simples e ágil.  Os sumérios estabeleceram um ativo comércio com os povos vizinhos e relações comerciais com a costa Mediterrânea e o vale do rio Indo.
A escrita cuneiforme, as artes, a religião, as técnicas agrícolas e de construção e outros inventos dos sumérios foram aproveitados pelos povos que com eles conviveram.
As constantes guerras internas provocaram o enfraquecimento político dos sumérios, facilitando a invasão da Mesopotâmia pelos acádios, povo de origem semita.

Acádios
Os acádios dominaram a Suméria por volta de 2550 a.C. Em 2300 a.C., conquistaram todas as cidades sumérias, liderados pelo rei Sargão I expandiram-se ao norte e dominaram a Mesopotâmia. A rápida vitória e o domínio sobre os sumérios podem ser explicados por duas razões: seu exército era mais ágil e utilizavam o arco e a flecha, instrumento mais rápido e eficiente do que as pesadas lanças e escudos dos sumérios. Estabeleceram a capital de seu império em Acad, daí o nome de civilização acadiana. Fundaram o primeiro império mesopotâmico, que durou até 2150 a.C., quando foram dominados pelos Guti, povo de origem asiática.
Contudo, nova onda de invasões estrangeiras ocorreu na região, desestruturando o Império Acadiano e possibilitando a retomada da hegemonia política dos sumérios. O domínio sumério sobre a área não foi, contudo duradouro, enfraquecidos por rebeliões internas, sofreram invasões de guerreiros nômades. Em 2000 a.C., chegaram os amoritas, outro povo semita, vindo do deserto árabe, que dominaram toda a região, conseguindo fundar o Primeiro Império Babilônico.

Amoritas ( antigos babilônios)
Os amoritas (antigos babilônios) estabeleceram-se no centro-sul da Mesopotâmia, vencendo seus vizinhos sob a liderança de Hamurabi formaram o Primeiro Império Babilônico, que ia do Golfo Pérsico aos Montes Zagros.
Com o governo de Hamurabi, a partir de 1792 a. C., a Babilônia conquista toda a Baixa Mesopotâmia, fundando um vasto império. Depois de séculos de lutas constantes, a Mesopotâmia, no século XVIII a.C., conheceu enfim a unidade. A partir daí, a preocupação de Hamurabi não era mais a expansão territorial e sim a preservação das terras conquistadas, tendo-se preocupado essencialmente com os ataques dos povos vizinhos e com as sublevações dos povos conquistados. O rei Hamurabi administrou seu império durante quase cinquenta anos.
A principal realização cultural dos amoritas foi o Código de Hamurabi, tendo por finalidade consolidar o poder do Estado e adequar-se ao desenvolvimento da economia mercantil. O Código de Hamurabi que influenciou muitas civilizações era composto por 282 artigos, o princípio que norteava o código era a Lei de Talião (olho por olho, dente por dente), estabelecia que as punições fossem idênticas ao delito cometido. A pedra em que estavam gravadas as leis foi encontrada por arqueólogos em 1901 e acha-se guardada no Museu do Louvre, em Paris.

Figura 2 A peça tem 2,25 m de altura, 1,50 metro de circunferência na parte superior e 1,90 na base

Algumas leis do Código de Hamurabi.
Se um filho bater com as mãos em seu pai, terá suas mãos cortadas.
Se um homem toma uma mulher e não estabeleceu um contrato, então essa mulher não é esposa.
Se um homem cegou o olho de um homem livre, terá o seu olho também furado. Furou-se o olho de um escravo, pagará metade do seu valor.
Se um médico tratou, com faca de metal a ferida de um escravo e lhe causou a morte, ele dará escravo por escravo.
Apesar da rigidez das leis um exame mais atento revela que elas não eram aplicáveis da mesma forma para todos, ou seja, variava de acordo com as condições sociais do indivíduo. Se fosse um pobre o código era extremamente rígido, mas com os ricos não era tão rígido.
Por volta de 1800 a.C. o Império Babilônico enfraquecido por problemas internos como a ruína dos camponeses que devido aos altos impostos e ao aumento dos trabalhos reais, eram transformados em escravos, e, portanto, impossibilitados de servirem ao exército. O império foi conquistado primeiro pelos hititas, que causaram grande impacto com a utilização do cavalo para fins militares, depois pelos cassitas e assírios.

Assírios
Os assírios eram um povo que antes de 2500 a.C., estabeleceram-se no norte da Mesopotâmia, na região de Assur e Nínive. A partir de 883 a.C., os assírios iniciaram um movimento de expansão territorial. Em virtude da baixa produção agrícola (solos pobres), os assírios dedicaram-se as técnicas de guerra, com um poderoso exército, o primeiro exército organizado do mundo, possuíam cavalaria, arqueiros e lanceiros. O segredo de sua eficácia militar era o domínio da tecnologia do ferro na fabricação de armas e ferramentas. A eficiência de seus ataques explica-se também pelos velozes carros de guerra puxados por cavalos. Eram extremamente cruéis, pois mutilavam e escravizavam seus oponentes. Além disso, associavam guerra e religião, pois acreditavam que agradavam sua principal divindade: o deus assur. Seu objetivo era saquear os povos conquistados e obrigá-los a pagar tributos.
Entre o século VIII e VII a.C., seus domínios ultrapassaram a Mesopotâmia, abrangendo Síria, Fenícia, Palestina e Egito. Os responsáveis por essa expansão foram Sargão II, Senaqueribe e Assurbanipal. Guerreiros extremamente cruéis pilhavam as áreas conquistadas e massacraram sua população, provocando uma série de revoltas durante o reinado de Assurbanipal, que desestabilizaram e enfraqueceram o Império Assírio. Em 612 a.C., os caldeus, aliados aos medos, destruíram as principais cidades assírias. Nabopolassar, comandando caldeus e medos, povos vizinhos, puseram fim ao Império Assírio e inaugurou o Segundo Império Babilônico.

Caldeus
Derrotados os assírios, a Babilônia volta a ser a capital da Mesopotâmia, agora sob domínio dos caldeus, formando um novo império, conhecido como Segundo Império Babilônico ou Neo Babilônico.
Com Nabopalassar, os caldeus, aliados dos Medos, consolidaram a independência da Babilônia, mas foi com seu filho Nabucodonosor que o império caldeu atingiu o seu apogeu. Foi durante o seu governo que a Síria e a Palestina foram definitivamente conquistadas. Com violentas investidas militares, o rei Nabucodonosor ocupou Jerusalém em 586 a.C. e escravizou os judeus. Os hebreus foram transportados como escravos para a Babilônia, episódio relatado na Bíblia como o Cativeiro da Babilônia. Ao que tudo indica muitos textos dos hebreus (antigo testamento) foram escritos quando estavam cativos na Babilônia. Ao conviverem com mitos, crenças e costumes eles foram influenciados pelos mesmos. Por exemplo, a epopeia de Gilgamesh narra um dilúvio semelhante ao narrado pelos hebreus. Como esta epopeia é anterior, provavelmente, influenciou na escrita sobre a arca de Noé.
No reinado de Nabucodonosor a cidade da Babilônia tornou-se o maior centro cultural e comercial de todo o Oriente. Foram construídos palácios, os jardins suspensos da Babilônia, considerados uma das sete maravilhas do mundo antigo e a Torre de Babel que na verdade era um zigurate (templos dedicados aos deuses). O comércio se expandiu com o predomínio do comércio caravaneiro que fazia a rota do Mediterrâneo à índia.
A morte de Nabucodonosor marcou o início da decadência do império até que, em 539 a.C., tropas persas comandadas pelo imperador Ciro I conquistaram a Babilônia, integrando a região ao seu império. A partir de então, a civilização mesopotâmica foi desaparecendo.

Economia, Sociedade e Política
A principal atividade econômica na Mesopotâmia era a agricultura, tal como a do Egito, inseria-se no modo de produção asiático. Sendo a atividade agrícola a principal fonte de subsistência na Mesopotâmia, o poder público controlava de perto a construção de reservatórios de água, canais de irrigação e depósitos de alimentos. Para isso usava a mão de obra das populações camponesas, submetidas ao pagamento de impostos ao rei.
A produção agrícola era variada, incluindo cevada, trigo, lentilha, linho, tâmaras e outros produtos. Nos campos criavam-se cabras, carneiros e ovelhas para obter carne, leite e lã. Os bois para puxar os arados e para outros serviços. Com o couro bovino faziam correias e sapatos, e com o leite de vaca fabricavam coalhadas e queijos finos. Mais tarde, começaram a domesticar cavalos para montaria e para a guerra.
Nas cidades, desenvolveram importante atividade artesanal; tecelagem, cerâmica, fabricação de armas, joias, objetos de metal etc. A excelente localização da Mesopotâmia favoreceu o desenvolvimento do comércio. Comerciantes deslocavam-se para outras regiões levando produtos fabricados pelos babilônios. Em consequência, a Babilônia transformou-se num dos mais importantes entrepostos comerciais da Antiguidade.   Até o século VI a.C., a cevada e os metais eram utilizados como padrão de valor nas trocas comerciais.
           A sociedade na Mesopotâmia, de forma geral dividia-se em dois grupos principais: classe dominante (governantes, sacerdotes, militares e comerciantes) e classe dominada (camponeses, pequenos artesãos e dois tipos de escravos: de guerra e por dívida). Inicialmente, os escravos eram pouco numerosos e a sua existência devia-se principalmente às dívidas. Com o tempo, o costume de transformar os prisioneiros de guerra em escravos fez aumentar o número de cativos na região. A classe dominante controlava a riqueza econômica, as forças política e militar e o saber.
A Mesopotâmia foi governada por monarquias teocráticas (acreditava-se que os reis eram servidores ou intermediários dos deuses) em que o poder estava concentrado nas mãos do soberano. O rei considerado um representante dos deuses na Terra, capaz de traduzir a vontade divina, detinha os poderes religiosos, militares e políticos

Aspectos culturais
A cultura na Mesopotâmia era muito rica em razão dos diversos povos que habitavam a região. Mas, quase toda a cultura mesopotâmica descendia dos sumérios, incluindo a religião, politeísta e antropomórfica. Sendo politeístas, acreditavam em vários deuses que representavam, como no Egito, fenômenos da natureza. Os deuses mesopotâmicos eram ao mesmo tempo entidades do bem e do mal. Cada cidade tinha seu deus protetor. Entre as principais divindades estavam Marduk, o deus da cidade da Babilônia e do comércio, Shamash, o sol e a justiça; Anu, o céu; Enlil, o ar; Ea, a água; Ishtar, a deusa do amor e da guerra e Tamus, a vegetação.
Os sumérios explicavam a origem do mundo através do mito de Marduk e da lenda do Dilúvio, muito semelhante à história bíblica da Arca de Noé. Segundo suas crenças, o deus Marduk criara o céu e a terra, os astros e o homem. Contudo, um dilúvio ameaçara a existência humana na terra e Marduk ajudou Gilgamesh a sobreviver, advertindo-o do perigo e aconselhando-o a construir uma arca na qual deveria colocar vários animais e os membros de sua família. No governo de Hamurabi, o deus Marduk da Babilônia foi adorado por todo o império.
Os povos mesopotâmicos viam a religião como meio de obter recompensas terrenas, imediatas, não acreditando na vida após a morte. Os rituais religiosos, comandados pelos sacerdotes, faziam do templo (zigurate) o centro de toda a religiosidade. Esses templos, às vezes, abrigavam também o celeiro e as oficinas. Neles se conhecia o estoque e se definia o critério de distribuição dos excedentes agrícolas tomados aos camponeses.

Figura 3 Zigurate

Os caldeus não acreditavam em vida após a morte, porém acreditavam em demônios, espíritos, magia, adivinhação e na influência dos astros sobre a vida humana, criaram a astrologia. Os astrólogos faziam horóscopos para interpretar a influência dos astros na vida humana.
Na arquitetura mesopotâmica destacava-se a construção de templos e palácios, como os zigurates. Pintavam e esculpiam sobre temas religiosos, esportivos e militares. Inventados pelos sumérios, os zigurates tornaram-se sua marca arquitetônica registrada: eram imensos templos com várias torres retangulares, igualando-se em grandiosidade aos palácios construídos pelos assírios e caldeus. Mas o uso de arcos também deixou sua marca na arquitetura desse povo. Como artistas, os sumérios destacaram-se nos trabalhos em metal, na lapidação de pedras preciosas e na escultura.
Foi, porém, no campo científico que os mesopotâmicos alcançaram maior destaque. Através da observação do céu, visando decifrar a vontade dos deuses, os sacerdotes acumularam informações a partir das quais foi elaborado, pouco a pouco, um conhecimento exato dos fenômenos celestes.

Legado Cultural da Mesopotâmia
· Divisão do ano de 12 meses e a semana de 7 dias;
· A divisão do dia em 24 horas;
· A crença nos horóscopos e os doze signos do zodíaco;
· O hábito de fazer plantio de acordo com as fases da Lua;
· O círculo de 360 graus;
· O processo aritmético da multiplicação;
· O cálculo das quatro operações aritméticas;
· A extração de raiz quadrada;
· A álgebra;
· O sistema de numeração sexagesimal, que dividiu a circunferência em 360º e à hora em 60 minutos;
· A distinção entre planetas e estrelas;
· A arte de prever eclipses;
·

No campo literário, o destaque fica para duas obras sumerianas: o Mito da Criação, que resgata a origem do mundo através do mito de Marduk, e a Epopeia de Gilgamesh, que conta a lenda do Dilúvio. Destaca-se também, como grande marco da história do Direito, o Código de Hamurabi. A descoberta suméria da escrita foi enriquecida com a produção de textos religiosos, históricos e lendas.
A escrita cuneiforme, criada pelos sumérios, foi utilizada pelos vários povos mesopotâmicos e adotada por outros povos da Ásia Ocidental. Foi decifrada pelos estudiosos Grotefend e Rawlinson.
Em linhas gerais, podemos dizer que a forma de produção dominante na Mesopotâmia foi a Asiática, não existindo, portanto a propriedade privada da terra. Os indivíduos só usufruíam da terra enquanto membros da comunidade. O rei, encarnação do Estado, era o proprietário nominal de todas as terras, o qual dirigia a construção de canais de irrigação que propiciavam as condições para o desenvolvimento da agricultura.
 No plano sociopolítico, esta forma de produção caracterizou-se pelos impérios teocráticos de regadio, organização estatal altamente centralizada. O poder estatal unificou em suas mãos os poderes político, militar, religioso e econômico. A rígida centralização do poder era necessária para o desenvolvimento da agricultura de regadio, através da organização do trabalho nas grandes obras públicas.
 A civilização mesopotâmica exerceu grande influência sobre os povos vizinhos, como os persas – que adotaram a escrita cuneiforme – e os hebreus – que aproveitaram algumas de suas tradições religiosas, como o mito do dilúvio.

Bibliografia
FERREIRA, Olavo Leonel. Mesopotâmia: o amanhecer da civilização, São Paulo: Ed. Moderna, 3ª edição, 1993.
LÉVÊQUE, Pierre. As Primeiras Civilizações, Vol. II: Mesopotâmia e hititas. Tradução de Antonio José P. Ribeiro. Rio de Janeiro: Edições 70, 1987.
CARDOSO, Ciro Flamarion. Sete Olhares sobre a Antiguidade. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 1994.
CROUZET, Maurice (org.) O Oriente e a Grécia Antiga. Tradução de Pedro M. Campos. (Coleção História Geral das Civilizações). Rio Janeiro: ED. Bertrand Brasil SA, 1993.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

A pré-história do Brasil



Pré-História do Brasil
 
Pinturas rupestres no Piauí
Falar em Pré-História do Brasil é montar um complicado quebra-cabeças com muitas peças faltando. A dificuldade começa já no título: Pré-História, uma expressão que passa a ideia errada de ser um período sem História. Os indígenas brasileiros tiveram uma história própria, de milhares de anos em que suas culturas, técnicas e artes sofreram mudanças e influencias. Entendemos por Pré-História os períodos da História sem escrita e que, por isso, só pode ser estudado pelos objetos feitos pelo homem. A divisão tradicional em Paleolítico, idade da pedra lascada, e Neolítico, idade da pedra polida também é contestada pelos especialistas. Praticamente essas expressões caíram em desuso no mundo científico. Atualmente, os cientistas preferem usar termos geológicos: Pleistoceno e Holoceno. Pleistoceno (aproximadamente de 1,8 milhões de anos atrás a 10 mil anos atrás) O clima e a vegetação do Brasil durante o Pleistoceno eram muito diferentes dos atuais. O clima era úmido e mais frio. Uma densa floresta de grandes árvores, cipós e samambaias cobria o que hoje é o semiárido nordestino. Rios, lagos e cachoeiras dominavam os campos. Durante o Pleistoceno, uma megafauna, hoje extinta, habitava as florestas e os campos do território brasileiro. Tatus gigantes, os gliptdontes, com 3 metros de comprimento e pesando quase uma tonelada e meia. Sua forte carapaça, quando vazia, podia servir de abrigo aos homens primitivos. Preguiças gigantes, o megatherium, pesando umas 4 toneladas, tinham o tamanho de um elefante. Passavam o dia todo comendo folhas de árvores e arbustos, utilizando sua língua comprida para obtê-las. Com suas poderosas garras, vergavam facilmente os galhos das arvores. Mas o animal mais temido era o tigre dente-de-sabre. Um felino com 3 metros de comprimento e pesando 900 quilos, ele foi o grande predador de preguiças, gliptdontes e outros animais da megafauna. Já o Holoceno inicia-se mais ou menos a 10 mil anos atrás até os dias atuais. Neste período os climas atuais instalam-se, assim como as faunas modernas. Ele inicia com o fim da última glaciação e os oceanos sobem.
Preguiça gigante
 
Tatu gigante

Povoamento do Brasil e o caso Luzia
Foi durante do Pleistoceno que ocorreu o povoamento do território que hoje corresponde ao Brasil. Vale ressaltar que o que atualmente chamamos de Brasil não existia antes de 1822 quando surge este país de forma independente.  Os primeiros grupos humanos que ocuparam nosso território são chamados de paleoíndios. As ossadas mais antigas de paleoíndios encontradas no Brasil pertencem ao final do Pleistoceno, entre 12 mil e 11 anos. Foram encontradas em 1975 na região arqueológica de Lagoa Santa, em Minas Gerais. Entre as ossadas, está Luzia, o esqueleto mais antigo das Américas, de 11.680 anos. Em 1999 aconteceu a reconstituição facial do crânio de Luzia feita por pesquisadores da universidade de Manchester surpreendeu o mundo científico. Seus traços não eram iguais aos indígenas atuais, ou seja, mongoloides cujos antepassados são de origem asiática que são semelhantes aos chineses e japoneses. Luzia, diferentemente, tinha traços negroides, semelhantes aos africanos e aos nativos da Austrália e da Polinésia. Essa descoberta levou os cientistas a uma nova hipótese sobre o povoamento da América. Ele teria sido feito por dois tipos humanos com características físicas distintas: um tipo negroide, possivelmente o mais antigo, vindo da Austrália ou das ilhas da Melanésia e da Polinésia e um grupo posterior, de origem asiática que teria entrado na América pelo estreito de Bering, e que acabou dominando o continente e dando origem aos indígenas atuais. Quais as consequências dessas descobertas? Segundo o pesquisador Walter Neves que estudou as ossadas de Luzia e de outros com o tipo africano/australiano propõe que houve uma onda migratória também pelo estreito de Bering, mas anterior aos grupos humanos asiáticos que deram origem aos índios americanos. Porém, muitos pesquisadores não estão convencidos com estas interpretações baseadas na morfologia dos crânios humanos. Segundo os arqueólogos Pedro Paulo Funari e Francisco Noelli (2006) os argumentos contrários baseiam-se em:
1º O número de crânios ainda são pequenos o que impede uma sólida comparação;
2º As diferenças cranianas não se explicam somente por migrações de povos, mas também por fatores ligados ao meio ambiente e à adaptação humana a tais variações;
3º Certas semelhanças entre os paleoíndios americanos e os aborígenes australianos podem ser explicadas como características que ambos herdaram de um ancestral comum, perdidas pelos mongoloides nos últimos 15 ou 10 mil anos.
Crânio da "Luzia" e sua possível característica


A pedra furada na Serra da Capivara, Piauí
Serra da Capivara

 Outras descobertas surpreendentes foram feitas nas escavações arqueológicas na Serra da Capivara, no município de São Raimundo Nonato, sul do Piauí. Ali foram encontrados esqueletos de 8.000 anos e vestígios de presença humanos ainda mais antigos que Luzia: são pinturas rupestres, restos de fogueiras e artefatos de 17 mil anos até 48 mil anos. Os resultados das escavações na Serra da Capivara levaram os cientistas a rever sua hipótese sobre a data do povoamento da América: ele teria ocorrido há pelo menos 40 mil anos atrás, isto é, muito antes do que se suponha.  Para os pesquisadores desta região os primeiros povoadores teriam vindo por meio de embarcações pelas ilhas do oceano Pacífico. Entre tantas descobertas, discussões e novas hipóteses, uma coisa é certa: por volta de 12 mil anos atrás, o território brasileiro já estava plenamente ocupado por diversos grupos de paleoíndios.
Por essa época, a megafauna do Pleistoceno ainda habitava florestas e campos brasileiros: tatus gigantes, preguiças pesando 5 toneladas e ferozes tigres dente-de-sabre viviam onde hoje é Minas Gerais, Bahia e todo sertão nordestino. Os paleoíndios tiveram que desenvolver uma série de reflexos e precauções para sobreviverem em um ambiente povoado por esses gigantes. Por volta de 9 mil anos, na transição entre o Pleistoceno e o Holoceno, o clima começou a mudar. As chuvas diminuíram, os rios secaram e a vegetação modificou-se. Os grandes animais começaram a desaparecer por fome ou sede. O clima tropical úmido transformou-se no semiárido de hoje. Essas mudanças ficaram marcadas nas formações geológicas que compõem a Serra da Capivara, no sudeste do Piauí. Ali ainda pode ser vista parte da floresta tropical úmida da Pleistoceno e a vegetação de caatinga formada no Holoceno. Da megafauna restaram numerosos fósseis estudados pelos paleontólogos. No fundo dos vales e no alto das chapadas, existem abrigos rochosos que serviram de refúgio ou de acampamento temporário para os paleoíndios. Nas paredes desses abrigos, eles pintaram uma enorme quantidade e variedade de figuras que hoje é considerado o maior conjunto de pinturas pré-históricas do mundo. As pinturas têm diferentes datações o que indica que a região foi habitada de forma ininterrupta por mais de 40 mil anos e seus autores pertenceram a diversos grupos étnicos. As pinturas não são homogêneas nem padronizadas. As temáticas variam como também o estilo, a composição das figuras e as técnicas de registro. Os seres humanos são pintados isolados ou em grupo, usando ornamentos, armas e outros objetos. Jamais poderemos saber exatamente que mensagens guardavam, pois seus significados se perderam com o desaparecimento dos povos que as criaram. As pinturas rupestres são uma forma de linguagem anterior à escrita. Mesmo sem conseguir decifrar seu código, elas são fontes de informações para os cientistas sobre a Pré-História do Brasil. Informam sobre o modo de vida daqueles seres humanos e seu ambiente natural. As mudanças de estilos nas pinturas indicam que ocorreram transformações culturais das sociedades indígenas e que existiram diferentes grupos étnicos ao longo de muitos milênios. Por isso é importante a preservação desses registros e de todo seu entorno natural. O parque foi criado graças ao trabalho da arqueóloga Niède Guidon que hoje dirige a Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM), instituição responsável pelo manejo e pesquisas do parque. Em 2012, estavam cadastrados 1.028 sítios arqueológicos com pinturas rupestres. Mas esse número aumenta anualmente com novas descobertas feitas pelos pesquisadores da FUMDHAM. As datações variam muito. No sítio Toca do Boqueirão da Pedra Furada, por exemplo, as pinturas datam de 29.860 anos, no mínimo. Em outros lugares elas tem entre 18 mil e 6 mil anos. Os restos humanos mais antigos encontrados são um esqueleto de uma mulher adulta de 9.670 anos. Em 1991, o parque foi declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco e, em 1993, reconhecido como patrimônio nacional. O Parque Nacional da Serra da Capivara é um museu a céu aberto, um verdadeiro santuário cultural de épocas pré-históricas e a preservação de seus sítios arqueológicos e de todo bioma da caatinga é compromisso e orgulho de todo brasileiro.

Para Niède Guidon os grupos humanos que viveram na região estiveram pelo menos há 40 mil anos atrás. Ela baseia-se em achados de supostas fogueiras feitas pelos habitantes, plaquetas de quartzito com manchas vermelhas caídas da parede que foram interpretadas como vestígios de pinturas, além de supostos instrumentos lascados. Para ela esses supostos primeiros povoadores teriam vindo navegando pelas ilhas do pacífico.
 
       A maioria dos pesquisadores negam os achados da arqueóloga Niède Guidon da Serra da Capivara pelos seguintes argumentos:
1º As fogueiras e pedras são naturais e não fruto da ação humana;
2º Não foram encontraram vestígios humanos tão antigos nas ilhas do Pacífico;
            Apesar dos estudos de Niède Guidon ser prestigiada na imprensa e nos livros didáticos (distribuídos nas escolas), no meio científico internacional a teoria dela não é plenamente aceita e, no Brasil, a maioria dos estudiosos também não considera aceitável a antiguidade atribuída por essa estudiosa ao “homem da Pedra Furada” (FUNARI; NOELLI, 2006).

A vida dos primeiros habitantes do “Brasil”

Povos caçadores e coletores
            Os primeiros habitantes eram nômades, ou seja, não possuíam habitação fixa e viviam mudando de lugar sempre em busca de melhores condições de vida. Viviam em bandos e suas habitações eram a céu aberto ou em abrigos sob rochas e, às vezes, em cavernas. Usavam ferramentas de pedras que eram usadas nas caçadas. Os arqueólogos descobriram que faziam anzóis de ossos de pequenos animais o que indica que também pescavam. No sul do Brasil foram encontradas pontas de flechas feitas de pedras para caçar animais mais ágeis, como pássaros.
            O uso do fogo foi importante para sobrevivência desses povos, pois serviam para iluminar, proteção e assar carne. Eles caçavam pequenos animais, como veados e emas. Dentre esses povos temos: as populações de Lagoa Santa, a Tradição Umbu, Tradição Humaitá, os sambaquis.

1.      As populações de Lagoa Santa
Em 1843 o dinamarquês Peter Lund encontrou ossadas humanas com as de outros animais na região de Lagoa Santa, Minas Gerais. Foi nessa região que a Luzia foi encontrada e como dito anteriormente as características são semelhantes aos africanos e aborígenes australianos.
Os esqueletos encontrados permitem afirmar que essa população viveu entre 10 mil a.c e 8 mil a.c; era baixo e magro e comia pequenos animais, frutos, peixes e caramujos grandes. Caçavam porco do mato, tatus e roedores.

2.      Tradição de Umbu ou povo da flecha
Viviam no sul e sudeste do Brasil, entre 12 mil até 1000 anos atrás, eram habilidosos em fazer instrumentos de pedra: facas de corte afiado, anzóis e pontas de flechas. Foram eles que difundiram o uso do arco e flecha, bem como, da boleadeira (arma composta de três bolas de pedra ligadas entre si por cordas de couro) que tornava possível a caça de animais velozes, como veados e emas, por exemplo, e de pássaros em pleno voo.

3.      Tradição Humaítá
Grupos que habitavam os barrancos e terraços próximos aos rios na região sudeste e sul. Viviam da coleta, caça e pesca. Seus instrumentos de pedra eram bem maiores que os da tradição umbu, por exemplo, machados bifaces e pedras com lascamento simples.

4.      A cultura dos sambaquis

Sambaqui
Sambaqui é um sítio arqueológico muito comum no Brasil. É um depósito de restos de mariscos, ostras, caranguejos, ossos de peixes e de mamíferos marinhos acumulados por populações pré-históricas no litoral. São encontrados na costa do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul. A palavra é de origem tupi, tamba (Marisco) e ki (amontoamento), significando concha amontoada ou monte de conchas e que a população local conhece como concheira, casqueiro, berbigueira ou ostreira. O formato dos sambaquis pode ser cônico ou semiesférico, sua altura varia de menos de um metro até 30 metros de altura, estendendo-se de 40 metros até 400 metros de comprimento. Os sambaquis são fontes de informações sobre antigos grupos de coletores e pescadores que viveram na costa brasileira entre 8 mil e 2 mil anos antes do presente. Eram povos anteriores aos tupi-guaranis que ocuparam a região mais tarde. Muitos sambaquis foram destruídos desde o período colonial transformados em cal para a construção de engenhos de açúcar, do Palácio do Governador, do Colégio da Bahia e outros edifícios. Cada comunidade construía os seus sambaquis para atender finalidades específicas, como demarcação de território, mirante, cemitério etc. Os mortos eram enfeitados com colares de conchas e enterrados com objetos como pontas de osso, lâminas de machado de pedra. É comum encontrar entre os esqueletos, dentes e vértebras de tubarões, macacos, porcos-do-mato e outros animais. As covas eram preparadas e, muitas vezes, forradas com argila, areia, corantes, palha e madeira. Há covas individuais e coletivas, corpos estendidos e em posição fetal e, muitos cobertos com pigmento vermelho. Foram encontrados nos sambaquis vários objetos utilizados pelos moradores como raspadores de conchas, batedores de osso e facas de pedra. Em meio ao material fossilizado há também, marcas de fogueira e potes de cerâmica de tamanho e formato variados. Nos sambaquis do litoral de Santa Catarina, foram descobertas estatuetas de pedra polida: são os zoólitos, figuras de animais representadas de maneira estilizada representando em geral baleias, peixes e pássaros. Os zoólitos são peças refinadas, de grande beleza. Alguns deles têm uma cavidade rasa no centro da peça que pode ter servido para colocar corantes ou alguma substância usada em rituais. 
Sambaqui

Agricultores e ceramistas
As datas prováveis propostas pelos pesquisadores para o início da prática da agricultura no território do atual Brasil variam entre 8 a 4 mil anos atrás. Neste território a mandioca foi o primeiro vegetal a ser domesticado. Ao que tudo indica foi na Amazônia que a agricultura originou-se na América do sul. Esta prática tornou as populações sedentárias e com crescimento demográfico.
Com o desenvolvimento da agricultura também desenvolve-se a cerâmica com criações de potes, vasilhas, pilões e panelas. Isso ajudou no preparo de alimentos em panelas.
Na Amazônia existiram duas principais culturas ceramistas: a marajoara e a tapajônica.
Cultura Tapajônica
 
Cultura Marajoara
A cultura tapajônica é composta por vasos com figuras humanas e de animais bem modeladas e estilizadas. A cultura marajoara utilizava diferentes cores em suas peças. A cerâmica marajoara, ilha do Marajó, criada pelo povo que habitava a região por volta de 3,5 mil anos atrás possuía em suas cerâmicas sinais padronizados que expressavam seus mitos.


Referências
ALVES, Alexandre; OLIVEIRA, Letícia Fagundes. Conexões com a história. 2.ed. São Paulo: Moderna, 2013.
BOULOS JUNIOR, Alfredo. História sociedade & cidadania. 6 ano. 2.ed. São Paulo: FTD, 2012.
FUNARI, Pedro Paulo; NOELLI, Francisco Silva. Pré-História do Brasil. 3.ed. São Paulo: Contexto, 2006. (Repensando a História).
PROUS, André. O Brasil antes dos brasileiros: a pré-história de nosso país. 2.ed. Rio de Janeiro: ZAHAR, 2007.

 
Texto elaborado pelo professor Bruno Rafael